Escrevivendo e Photoandarilhando por ali e por aqui

“O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes)

«Todo o filme é uma construção irreal do real e isto tanto mais quanto mais "real" o cinema parecer. Por paradoxal que seja! Todo o filme, como toda a obra humana, tem significados vários, podendo ser objecto de várias leituras. O filme, como toda a realidade, não tem um único significado, antes vários, conforme quem o tenta compreender. Tal compreensão depende da experiência de cada um. É do concurso de várias experiências, das várias leituras (dum filme ou, mais amplamente, do real) que permite ter deles uma compreensão ou percepção, de serem (tendencialmente) tal qual são. (Victor Nogueira - excerto do Boletim do Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Janeiro 1973

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Como encaramos a morte em cada parte do mundo


1 / 17 Gronelândia ©Klaus Bo


6 / 17 Nas margens do rio Ganges, Índia ©Klaus Bo


10 / 17 Madagáscar ©Klaus Bo


12 / 17 Guatemala ©Klaus Bo


13 / 17 Ritual fúnebre no Nepal ©Klaus Bo

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ATENÇÃO: esta fotogaleria contém imagens que podem ser consideradas chocantes.

"Vamos todos morrer. Este facto é comum a todas as pessoas de todas as culturas, religiões e países do mundo", evidencia o fotógrafo dinamarquês Klaus Bo, em entrevista ao P3. "A forma como nos relacionamos com a morte e como nos despedimos daqueles que amamos, no entanto, varia bastante.” Essas variações estão no centro o projecto Dead and Alive, que o fotógrafo desenvolve há vários anos e que tem como objectivo retratar os rituais fúnebres das cinco principais religiões do mundo — o Islão, o Judaísmo, o Hinduísmo, o Budismo e o Cristianismo — e de dez outros associados a outros credos. Tudo começou depois de ter fotografado um funeral numa mesquita, em Copenhaga, em 2002, e de ter visto, pela primeira vez, uma pessoa morta. "No Norte da Europa, a morte é um enorme tabu. Não queremos lidar com ela, não sabemos como falar sobre ela e os nossos rituais consistem em meia hora numa igreja, seguida de duas horas a comer bolo e a bebericar café. Nada mais. Por norma, nem sequer chegamos a ver o corpo da pessoa que morreu." Um ritual fúnebre dinamarquês difere em absoluto de um ritual indonésio; é essa diversidade que alimenta a curiosidade do fotógrafo e o mantém na sua cruzada. Ma'nene é o nome do ritual mais interessante que fotografou até hoje. Em Toraja, na Indonésia, durante o mês de Agosto, "aqueles que já morreram são retirados das suas campas por membros da família, são limpos e vestidos com roupas novas", descreve. "Depois disso, tiram-se fotografias de família com os falecidos", continua. "Assistir a isso foi uma experiência interessante e incrível." No Nepal, viu também um grupo de pessoas a colocar um morto rígido na posição de lótus, algo que jamais esquecerá. O dinamarquês tem sido bem-vindo em todos os locais por onde tem passado, mas admite que nem sempre é fácil ter acesso às cerimónias, por se tratarem de momentos tão íntimos e dolorosos.

Klaus Bo conclui que existe um elemento comum em todos os rituais que registou: a crença na vida eterna ou na reencarnação. "Em alguns locais acredita-se que a vida continua exactamente da mesma forma que aqui na Terra, mas que tudo acontece noutro lugar." A Dinamarca, no entanto, representa uma excepção à regra. "No meu país, existe a crença de que tudo acaba quando morres. Quase ninguém acredita que exista algo para além da morte e, ao mesmo tempo, recusamo-nos a aceitar a nossa própria mortalidade." Até hoje — e desde há vários anos —, Klaus Bo já fotografou rituais fúnebres em Madagáscar, Gana, Nepal, Índia, Dinamarca, Indonésia, Haiti, Gronelândia, Guatemala e Filipinas. Ultimamente tem andado a estudar a Roménia, mas confessa ter uma lista em que constam 55 rituais que considera suficientemente interessantes para fotografar à volta do mundo. "Quando comecei, não tinha ideia de que este projecto se tornaria no grande trabalho da minha vida." 

Klaus Bo dedica 30 a 40 horas ao projecto por semana, ao mesmo tempo que reúne fundos para novas expedições, trabalhando como freelancer. "Espero que no futuro [esta série fotográfica] dê origem a mais do que um fotolivro e a uma exposição itinerante", refere. O projecto  foi publicado na revista National Geographic, em 2016, em 2016, e continua em desenvolvimento. O seu progresso pode ser acompanhado através da conta de Instagram @deadandaliveproject.. Ao longo da carreira, Klaus Bo já trabalhou sobre vários temas, entre eles a vida de refugiados iraquianos na Síria, a perseguição aos cristãos coptas no Egipto ou a devastação causada pelo terramoto no Haiti, em 2010.


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